ONG internacional prepara relatório sobre envenenamento em Paracatu- diz Correio Braziliense



O medo do arsênio alterou a rotina e a forma de pensar dos habitantes do município mineiro de Paracatu – a cerca de 200km da capital da República. A pacata cidade, de mais de 90 mil habitantes, foi agitada por denúncias que colocam sob suspeita as atividades da maior mineradora de ouro a céu aberto do país, a Kinross Gold Corporation, distante apenas 250m do centro urbano — uma das únicas no mundo tão próxima de uma comunidade. Um suposto envenenamento em
massa pela substância, liberada na retirada do mineral, e a relação com taxas crescentes de câncer na região — questões noticiadas pelo Correio há pouco mais de dois meses —, fomentaram audiências públicas, visitas de representantes de organizações não-governamentais e de acadêmicos à cidade. E, sobretudo, tiraram a população da inércia. A levaram ao médico e aos bancos de laboratórios.

Uma das opiniões que corrobora o medo dos moradores é do geólogo e mestre em planejamento e gestão ambiental Márcio José dos Santos. Segundo ele, em Paracatu, as pessoas estão expostas naturalmente a um teor maior de arsênio nos corpos, mas isso não significa dizer que amostras de 7µg/g ou 8µg/g (de arsênio em exames de urina), por exemplo, não representem contaminação. A dona de casa e agricultora Maria Helena Nunes, 66 anos, chama de covarde a relação entre a mineradora e os moradores do Ribeirão Santa Rita, uma das localidades mais atingidas. Há mais de 40 anos no local, ela não se surpreendeu quando recebeu o resultado do exame de arsênio, que contatou patamar de 14,2 µg/g de creatinina, acima do indicado na Norma Reguladora 7, do Ministério do Trabalho, que considera 10 µg/g como valor de referência em população não expostas em serviço.

O Correio visitou a cidade mineira dois meses depois que um suposto envenenamento em massa por arsênio foi denunciado. A discussão e a indignação tomaram conta da população, que clama por uma solução para o assunto

“Infelizmente, eu previa. E olha que ainda tenho casa na cidade. Vou lá, volto aqui. Imagine se ficasse direto na fazenda, qual seria o meu resultado?”, questiona. “Parentes meus também estão contaminados. E para piorar, não tem água no meu lote. Então, meu gado precisa sair para beber. E por beber água no terreno deles, decidiram me processar por isso. É muita humilhação”, lamenta.

Enquanto os impactos econômicos não são mensurados no município, a Justiça Global, uma organização não governamental com foco nos direitos humanos, prepara um relatório sobre o caso de Paracatu, que abordará, entre outras questões, a violação de direitos das comunidades quilombolas (que tiveram terras compradas pela empresa), impactos na saúde da municipalidade e o processo de licenciamento para construção das barragens de rejeito. A suposta contaminação por arsênio também será relatada no documento, previsto para ser publicado até julho deste ano.

A Prefeitura da cidade não respondeu os questionamentos da reportagem. Já a empresa rebate todas as alegações, amparada em estudos que mostram o baixo teor de arsênio em amostras de águas e sedimentos da região. Além de tratar águas captadas nos barramentos, que estão localizados na sub-bacia do Santa Rita, antes de serem devolvidas aos córregos, a empresa informa que há monitoramentos periódicos e que comprovam a boa qualidade da água. A Kinross acrescenta que “toda a operação é devidamente licenciada, inclusive passando por audiências públicas e fiscalização dos órgãos responsáveis. A gestão de águas é feita de acordo com a legislação e com o acompanhamento dos órgãos reguladores, que recebem os relatórios de monitoramento regularmente”. Ainda de acordo com representantes da companhia, os efluentes finais da empresa têm qualidade similar à dos córregos.
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